Por si só, o Coronavírus já estava derrubando as bolsas de valores desde o Carnaval, no entanto, no início de março surge um novo evento inesperado: Arábia Saudita e Rússia, os maiores produtores de petróleo do mundo, entram em conflito sobre um corte de produção, como resultado, o preço do barril de petróleo despencou.

No passado, todas as outras quedas fortes do petróleo aconteceram em razão de um choque de oferta ou de um choque de demanda.

No entanto, o momento que estamos vivendo é diferente: ao mesmo tempo em que existe um aumento de oferta (países aumentando a produção), existe uma queda brutal de demanda, já que o mundo está “parado”.

A história sempre nos ensinou que a quebra de um cartel nunca acontece sem conflitos. O racha na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP+) não foi diferente.

Ambos os eventos: Coronavírus e Choque do Petróleo (com um conflito na OPEP+), não estavam precificados pelo mercado há dois meses

Muitos dizem que o plano da Arábia Saudita é exercer efetivamente a sua dominância como o maior e mais eficiente produtor do mundo, tirando do mercado os produtores com maior custo de produção, em especial os Produtores de Xisto dos Estados Unidos.

Se os preços permanecerem nesses patamares, a produção de xisto na maioria dos poços americanos se torna inviável do ponto de vista financeiro.

Algumas regiões americanas dependem muito da receita do petróleo, não só porque as empresas geram empregos e renda para a população, mas também porque pagam grandes quantias em impostos para as comunidades locais.

Nos últimos dias, o preço do barril de petróleo despencou para as mínimas do Século. As grandes questões agora são: até que patamar os preços podem cair e qual seria o gatilho para uma possível reversão?

Choque de Oferta e de Demanda

Analistas estimaram que 2020 será o primeiro ano em que existirá uma queda no consumo global de petróleo desde a Crise Financeira Mundial em 2009.

preço do barril de petróleo

Algumas consequências econômicas práticas que podem acontecer no caso da manutenção dos preços nos patamares atuais:

  • Dano econômico significativo em países produtores de petróleo, cujas receitas nacionais estão muito ligadas ao preço da commodity.
  • Choques econômicos e possível disrupção social em nações institucionalmente frágeis, como Iraque, Algéria e Nigéria.
  • Falências em massa de produtores de petróleo nos Estados Unidos (empresas que possuem alta alavancagem e menor eficiência), principalmente nos estados do Novo México, Utah, Colorado, Texas, Alaska, entre outros.
  • Redução da independência dos Estados Unidos em relação ao petróleo consumido pelo país (algo que pode ter consequências geopolíticas, ainda desconhecidas)
  • Empresas podem parar os esforços em relação a pesquisa e desenvolvimento de produtos e serviços com menor emissão de poluentes (o petróleo em baixa desincentiva outras formas de geração de energia).
  • Dificuldades por parte dos fabricantes de veículos de transporte elétricos, justo quando estava havendo maior demanda por esses produtos.
  • Diminuição do custo de produção dos derivados de petróleo, como o plástico.

Tanto a Rússia quanto a Arábia Saudita precisam do dinheiro do petróleo para equilibrar as suas contas públicas no longo prazo, no entanto, a Arábia Saudita parece ser mais dependente do petróleo do que a Rússia, já que possui menos reservas internacionais (em dólares).

Não existe dúvidas que todos perdem com o choque atual. Ambos estão em um “jogo de galinhas”, esperando o primeiro se entregar, e isso irá acontecer mais cedo ou mais tarde.

Para Onde Vai o Preço do Barril de Petróleo?

Já o banco Goldman Sachs vai além, afirmando que nem mesmo um acordo para o corte da produção pode aumentar significativamente o preço do barril de petróleo, já que a demanda está muito baixa.

O Bank of America ainda alerta que com o aumento da produção, estão havendo dificuldades para armazenar todo o estoque produzido, que não está sendo vendido, o que também pode puxar os preços para baixo de 20 dólares por barril.

preço do petróleo hoje
Preço do Petróleo e Eventos

Caso os países não concordarem em aumentar os preços através de uma redução conjunta de produção, provavelmente irá acontecer uma liquidação geral” de estoque, seja com lucro ou sem. Se for possível fazer isso com lucro, tudo bem.

Enquanto isso, em virtude da incerteza do contexto atual, o petróleo permanece nas mínimas históricas, prejudicando, principalmente, os já frágeis produtores americanos.

O choque ainda não acabou e existe história para ser escrita, visto que se trata de algo sem precedentes na história. Grandes eventos podem estar nos esperando à frente.

É impossível saber quando o setor de óleo e gás vai sair da crise. O que sabemos é que quando isso acontecer, certamente vão existir menos players. Por último, a Petrobras, que é parte relevante do Índice Ibovespa (BOVA11) pode sofrer bastante.